domingo, 8 de janeiro de 2017

Memória timesdors: Cruzeirinho de São Roque, Bento Gonçalves

Time do Bairro São Roque fez história nos campos amadores na década de 1970


     Os mais antigos moradores do bairro São Roque em Bento Gonçalves lembram, com muita saudade, do Esporte Clube Cruzeiro, o Cruzeirinho como era carinhosamente chamado pelos torcedores. O bairro Aparecida ainda não existia, tudo era São Roque. O Cruzeiro era o símbolo futebolístico da comunidade daquela época.


     Fundado por um grupo de desportistas do bairro, que depois começou a criar adeptos fanáticos pelo clube, a equipe surgiu nos anos 1960, e durou pouco mais de 20 anos. Adão Vilson de Paula, o popular “Doti”, foi um dos fundadores da equipe e, juntamente com Irineu Ribeiro, o “Pulli”, Flávio Aurélio dos Santos, ou “Preto”, e Darci Rodrigues, conhecido também como “Russo”, que tiveram importante participação na formação do grupo do Cruzeiro.

EC Cruzeiro em 1966 na Vila Militar, Bairro São Roque: Em pé: Osmar, Béco, Céres, Valdir Caprara, Marino Bergonci, Adem Lopes, Correntino e Bicca. Agachados: Vitório, Amilton, Pulga, Raul Cembranel,  Miro e Negrão.

     O time disputou diversos torneios e amistosos e agregava dois grupos, o principal e o aspirante. Mas foi de 1975 até 1977 que a equipe ganhou notoriedade no futebol amador da cidade. Com a disputa do famoso campeonato municipal ou citadino, o Cruzeiro conseguiu ser vice-campeão em um destes eventos esportivos e chamou a atenção das pessoas, principalmente, daquelas que mantinham uma admiração pelo clube. Os jogos, quando eram realizados na praça de esporte do clube ou no campo do 6º BCom, sempre estavam lotados de torcedores, a maioria do bairro, incentivando a equipe. Adão de Paula, hoje um mero torcedor, conta que a torcida era, na sua maioria, formada pelos familiares e moradores que se apaixonaram pelo Cruzeiro. “Eles vinham em bom número e, muitas vezes, não tinha espaço para acomodar tanta gente. Éramos imbatíveis em nosso campo e todos respeitavam e temiam o Cruzeirinho”, disse.

EC Cruzeiro do Bairro São Roque em 1976. Em pé: Cesar, Pedro, Roberto, Quesa e Carlinho. Agachados: Beiço, Darci, Alfredo, Cabeça e Baliza.

     Nos jogos fora do seu reduto, a equipe levava uma quantidade enorme de torcedores, o que fazia com que o prestígio aumentasse ainda mais. Muitas vezes, as pessoas eram conduzidas por quatro ônibus lotados que os levavam até os locais das partidas que o clube iria jogar. Adão ressalta ainda que, “sempre buscávamos o melhor para o grupo, mas na intenção de alegrar nossa torcida nos domingos à tarde, e também nas quartas-feiras à noite, já que o campo do Batalhão tinha iluminação”, conta.

Um time de luxo
     Com o passar do tempo, o Cruzeirinho começou a competir em nível regional. A torcida sempre estava lá para prestigiar o clube que, entre 1975 e 1977, teve uma formação especial e de qualidade, segundo os torcedores. A escalação, que fica na memória dos moradores, tinha Paulo Lopes, Pedro, Kieza, Carlinhos, Paim, Meio, Donga, Gilmar, Sérgio Barbosa, Zulu, Quaraí, Cabeça, e ainda contava com atletas do quadro “B”, que despontavam como possíveis substitutos como Raul, Juarez, Dutra, Balisa, Feijão, Dotti, Áuber, Machado, Maneco, Valdemar, Ivan, entre tantos outros. Um destes atletas era Edson Lopes de Freitas, o Donga, que na época atuou na equipe juvenil do Clube Esportivo Bento Gonçalves. Poucos sabem, mas Donga era titular e tinha como seu reserva Renato Portaluppi, hoje técnico do Grêmio. Donga afirma que o Cruzeirinho era uma equipe que dava prazer de jogar, pois tinha organização, direção e uma excelente comissão técnica. “Jogávamos por amor a camisa e tínhamos um dos melhores time da cidade em uma época que outros times de Bento Gonçalves também eram fortes, mas para vencer o Cruzeiro tinha que suar muito”, afirma emocionado. 


Torcedores apaixonados

     Alguns dos jogadores do Cruzeirinho já faleceram, mas muitos ainda residem na cidade e lembram com muita saudade daquele saudoso time imbatível, que dava a alegria para os moradores do bairro São Roque. Eles hoje são meros torcedores que, também na época, se apaixonaram pelo belo futebol que compunha a equipe. Mas, três torcedores são destaques daquele time. Marcílio Lopes de Abreu, Cândido Cardoso (Candinho) e Coraldino de Melo foram os grandes protagonistas desta paixão pelo clube. Eles eram fanáticos e não perdiam nenhum jogo em São Roque e mesmo fora dele. Marcilio, por exemplo, tinha uma amizade com os atletas e, antes de iniciar a partida, os jogadores ouviam seus conselhos. Ele até dormia com a bandeira e a camisa do clube. Era um apaixonado eterno pelas cores do Cruzeirinho.  Assim, o clube tinha o incentivo deles, e de muitos outros, nas arquibancadas durante os 90 minutos, e que jamais abandonaram a equipe, mesmo nas horas mais difíceis. Paixão de coração. Era assim com estes três torcedores.
      Antes mesmo do final da década de 1980, o clube acabou, mas deixou saudades e lembranças de animados domingos que alegravam a comunidade do bairro São Roque. Durante os anos de glória da equipe do Cruzeiro, um dos atletas, que hoje é músico, Altair Fernandes, escreveu um hino que ficou famoso entre os torcedores da época. A letra falava do amor pelo clube e o refrão ficava assim: “Cruzeiro, eu não me engano, tu és pobre, mas eu te amo”.


Fontes:
- Jornal Semanário de Bento Gonçalves, 06.04.2011
- Fotos: Gentil  Borges

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